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Mais de 100 crianças acusadas de feitiçaria foram atiradas ao rio pelos seus familiares
10/01/2020 09:47 em Novidades

Mais de cem crianças acusadas de práticas de feitiçaria nas províncias de Cabinda, Zaire, Malanje e Bengo, nos últimos três anos, foram atiradas aos rios pelos familiares, informou uma equipa de investigadores nacionais do Centro de Estudos e Investigação em População (CEIP).

O fenómeno “feitiçaria” contra menores constitui um problema social que tem preocupado os investigadores do Centro de Estudos e Investigação em População (CEIP), afecto à Universidade Agostinho Neto (UAN) e as organizações sociais ligadas à causa.

Em declarações ao Jornal de Angola, o director do Centro de Estudos e Investigação em População (CEIP), Ndonga Mfuwa, disse ter constatado no terreno que muitos pais e encarregados de educação lançam os filhos aos rios para, de seguida, serem devorados pelos jacarés, alegando serem feiticeiros.
Alguns progenitores, prosseguiu o investigador, além de acusarem os filhos de feiticeiros, expulsam-nos do seio familiar e mais tarde arrependem-se do que fizeram e depois de procederem de tal forma, entram em conflito com as entidades acolhedoras.
Ndonga Mfuwa explicou que os dados foram obtidos mediante um trabalho aturado dos investigadores realizado em vários município do país, com realce para as províncias do Norte, como Cabinda, Zaire, Uíge, Bengo e Malanje, onde considerou endémico o fenómeno “feitiçaria”.
Apontou as do Uíge, com maior número de casos, Zaire e Bengo, precisamente nas localidades dos Dembos e Quibaxe, como as províncias mais endémicas.
“Nestas províncias muitos acreditam no feitiço, mas, infelizmente, não conseguem provar que um determinado individuo é feiticeiro”, lamentou o especialista, referindo que das investigações realizadas, em algumas regiões do país, ninguém conseguiu demonstrar, materialmente, a existência do fenómeno “feitiço”.
O director do CEIP considera, por isso, grave o fenómeno, porque tem originado conflitos entre famílias e instituições acolhedoras, sobretudo quando se apercebem das principais causas de morte dos menores.
Ndonga Mfuwa disse que, sendo o feitiço um fenómeno causador da destabilização social e, por se tratar de seres humanos desprezados deve ser combatido para evitar com que as crianças se desenvolvam na sociedade de forma equilibrada.
“Como investigadores, vamos trabalhar com as autoridades civis e do Estado para pôr termo a este fenómeno”, disse Ndonga Mfuwa, que garantiu endereçar o processo às autoridades tradicionais para solução do caso “Feitiçaria Infantil”.

INAC em defesa das vitimas

O Instituto Nacional da Criança (INAC) deu por concluído, em 2019, cerca de 39 processos de crianças acusadas de práticas de feitiçaria. Em 2019, o INAC registou 46 casos de crianças acusadas de práticas de feitiçaria, sendo 31 pertencente ao sexo masculino e 15 do sexo feminino./>Segundo dados fornecidos pelo instituto, as províncias que apresentaram maior índice de vitimas são, Bié com 24 casos, seguido do Zaire com oito casos. Os restantes dados foram registados nas Províncias do Bengo com dois casos, Cabinda e Luanda com quatro, e por último as Cuanza Norte, Cuanza Sul, Huila e Namibe com um caso.
Os casos resolvidos realizaram-se através das acções de aconselhamento e apoio psicossocial às vítimas.

Projectos em curso

Com o propósito de se combater o fenómeno “feitiçaria” contra menores, o Centro de Estudos e Investigação em População (CEIP) tem em vista, para o segundo semestre deste ano, a publicação de uma colectânea sobre casos de feitiçaria, do qual constarão dados obtidos durante os estudos realizados nos últimos dez anos.
Participaram no processo de investigação, que durou dez anos, cinco especialistas, que se desdobram em vários municípios, comunas e zonas recônditas do país.
Entre os projectos em carteira do CEIP constam dois, sendo uma a compilação sobre o Sistema de Educação, com casos de estudo nos municípios de Viana e Panguila e outro sobre a fertilidade, com destaque para a saúde reprodutiva.
Em relação às pesquisas, Ndonga Mfuwa esclareceu que os investigadores pretendem saber mais dos principais motivos do fraco rentabilidade do sistema educativo, sobretudo no ensino primário onde se regista um elevado nível de baixo rendimento dos alunos. Sublinhou que se constatou que tal situação se deve a problemas de instabilidade familiar e falta de qualificação dos docentes.
Em relação à fertilidade, Ndonga Mfuwa disse que se pretende durante as pesquisas estabelecer uma média entre a natividade (Nascença das crianças) e a Mortalidade, número que cresce a cada dia que passa, referindo que quando existe uma mortalidade elevada de crianças significa que o crescimento da população está em risco, o que é preocupante.
Ndonga Mfuwa informou que depois da publicação das colectâneas, o próximo projecto social será direccionado ao sector alimentar, uma área complexa e que tem preocupado os especialistas da saúde pública.
Tendo alertado para o perigo no excesso de gordura, doces, álcool e fumo na vida da população.
O Centro de pesquisa vai, igualmente, apostar no sector formativo, onde já capacitou uma média de 80 estudantes. Para este ano, estão em preparação cursos profissionais de língua Portuguesa, Pedagogia, Didáctica, Psicologia, Estatística, bem como estudos de pôs - graduação, mestrado e douramento.

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